26 de janeiro de 2009

Abriu, não troca mais.


Havia chegado o grande dia. Finalmente compraria seu primeiro time de futebol de botão.


Subiu em sua bicicleta e se dirigiu ao pequeno estabelecimento comercial, onde, tradicionalmente, se vendia de tudo um pouco. A distância a percorrer era razoavelmente grande para uma criança com pouco menos de dez anos.


Apesar da pouca idade, ele já se declarava torcedor do Flamengo, só que o time de futebol de botão que encheu seus olhos foi o do Palmeiras, com aquele verde forte e imponente. A década de 80 foi um período com grandes conquistas do rubro-negro carioca no futebol nacional e internacional, sendo previsível que crianças em todo o país passassem a simpatizar e torcer por ele. Mas o garoto, desconhecendo o longo período sem conquistas que o clube paulista enfrentava, escolheu o alvi-verde palestrino* como seu primeiro time de futebol de botão.


Voltou para casa todo orgulhoso pela compra, ansioso para estreá-lo mostrando ao irmão mais velho, ao tio quase da idade do irmão, aos primos e aos amigos da vizinhança. Agora poderia brincar sem ter que pedir emprestado deles.


Quando abriu a embalagem, uma surpresa nada agradável. As peças estavam todas retorcidas... tudo empenado. Talvez por ter sido exposto ao calor excessivo do meio do mundo**, o material plástico não suportou e entortou. Ou o defeito poderia ser da fabricação, não havia como descobrir. O certo é que todos disseram pro garoto voltar lá para trocar, e foi o que ele fez.


No estabelecimento comercial, com o brinquedo em mãos, pediu que fosse trocado por outro em perfeitas condições de uso, mas ouviu do comerciante, com um ligeiro sorriso na boca, uma frase que marcaria sua infância:


_ Abriu, não troca mais.


Um abatimento profundo tomou conta daquela criança, que voltava para casa em sua bicicleta deixando pelo caminho não só as marcas dos pneus, mas também as marcas da sua tristeza infindável, com as lágrimas que pingavam no chão.


- Navi Leinad -

* Palestra Itália foi o primeiro nome do Palmeiras.
** A cidade é cortada pela Linha do Equador.

3 comentários:

Harold disse...

Daniel!
Sua crônica autobiográfica me faz lembrar o caminho que se fazia para chegar ao centro comercial de Macapá. Às vezes, fazia este caminho para comprar revistas em quadrinho na banca de Dorimar (será que ele morreu?) ou na agência Zola (lembra desta loja?).
Le lembrei de como era bom jogar botão. Modéstia a parte, ganhei alguns torneios domésticos. Acho que é daí que vem meu interesse por táticas de jogo.
Também acho que suas crônicas são de excelente gosto. Parabéns!
Saudações enzísticas!!!

Paralelos do Cotidiano disse...

Levar um não qnd criança pode quebrar diversos paradigmas, inclusive começar a ter aquela infeliz desconfiança que o adulto tende a colocar como lei.

Ivan Daniel disse...

Harold,
lembro da Zola sim, inclusive acho até que ainda está lá o nome, mas acredito que sem funcionar.
Já a banca do Dorimar permanece firme e forte.
Eu também era um bom jogador de botão.
Abraço!

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Paralelos,
imagina depois servir de piada por muito tempo...
Por ironia do destino aquela criança, já adulta, trabalhou com defesa do consumidor.
hehehe...